Livro: Interpretações da Fenomenologia do Espírito de Hegel

INTERPRETAÇÕES2

Primeira tentativa genuinamente brasileira de uma interpretação unitária e sistemática da Fenomenologia hegeliana, Interpretações da Fenomenologia do Espíritode Hegel se apresenta ao público leitor ao mesmo tempo como uma obra essencialmente plural. No dizer dos organizadores, a obra é unitária na medida em que seus colaboradores partem de uma leitura interna do movimento especulativo que se desenvolve na Fenomenologia do Espírito de 1807. Ela se mostra igualmente plural porque busca assumir e manter, assim como retomar e desenvolver as contribuições mais relevantes que iluminam o olhar da consciência típica do século XXI a partir da autoconsciência do espírito manifesta na aurora do século XIX. Não se trata pois de simples contribuição aos estudos hegelianos no presente, mas de uma intervenção no debate contemporâneo em torno do problema da consciência, assim como de um confronto com o pensar atual em torno desse problema.

A exigência de Interpretações da Fenomenologia do Espíritode Hegel consiste em que, mais uma vez, o pensar pense a si próprio. Isso significa que não está em jogo o mero problema da consciência como tal e sim, mediante a retomada e o desenvolvimento deste, o problema mesmo da autoconsciência. Por isso, ao invés de confrontar-se diretamente com as expressões típicas do pensamento contemporâneo, por exemplo aquelas que fragmentam a dimensão do Si mesmo em múltiplos jogos de linguagem ou aquelas que o submergem a uma concepção global do indivíduo humano como Dasein, a obra em apreço limita-se a explicitar passo a passo cada uma das estações da consciência em sua elevação à ciência. Elevação essa que é ela mesma ciência, a ciência da experiência de consciência e que, de modo bastante perspicaz, os organizadores acrescentam: que se sabe fenomenologia do espírito no presente. Ora, uma ciência da experiência de consciência que se sabe fenomenologia do espírito no presente não é mais, necessariamente, aquela ciência da experiência da consciência que Hegel chamara Fenomenologia do Espírito. Em Hegel tal ciência ainda se apresentara em seu início, como a ciência que recém inicia; agora a mesma necessariamente tem que se apresentar em seu fim ou antes em seu ocaso. Situação em que o seu saber de si mesma como fenomenologia do espírito não é apenas uma possibilidade avançada pelo filósofo, mas a tomada de consciência de si mesma desta como espírito; logo, não como autoconsciência individual e sim como autoconsciência universal. Uma tomada de consciência que não é meramente imediata ou intuitiva e nem apenas mediata ou representativa; ao contrário, que é porém a um tempo imediata e mediata, intuitiva e representativa a um tempo; por conseguinte conceptiva. Conceptiva porque se sabe fenomenologia do espírito e assim consciência para ela (für es) mesma e consciência para nós (für uns).

Isso porém ainda não se mostra à consciência do tempo presente, que a rigor é consciência nenhuma. Esta se limita à representação ou à comunicação sem se dar conta que, tanto em um caso, quanto em outro, quem representa e quem comunica, justamente para tal, precisa antes, respectivamente, intuir e ser reconhecido. Revisitar a Fenomenologia do Espírito é por isso não só refazer a experiência da consciência, mas também compreender-se na própria fenomenologia do espírito, que embora apareça como consciência, aparece sabendo desse aparecer, não mais nos limites de um aparecer da ideia abstrata e sim nos quadros de um revelar do espírito ou antes do conceito. Pode-se dizer isso para o caso destas Interpretações daFenomenologia do Espíritode Hegel na medida em que as mesmas, ao invés de apenas comentarem a obra hegeliana, na verdade a repropõe justamente enquanto “percorre cada uma das estações da consciência e busca destrinçar uma a uma as diversas questões que nestas estações ne apresentam” (p. 14). Desse nodo o périplo da consciência filosófica que hoje percorre a Fenomenologia do Espírito não pode mais ater-se apenas ao para nós, nem deve igualmente limitar-se ao para ela; ao contrário, deve observar o revelar do espírito e o do conceito e, nestes, identificar o movimento que é o seu próprio. Ela refaz sim a experiência da consciência, tanto como uma experiência da consciência mesma, quanto como do filósofo; neste refazer porém ela se dá conta que aí não está mais em jogo o revelar ou o aparecer da ideia abstrata e sim o do espírito e mais precisamente o do conceito. Caso em que se ainda se impõe a ideia de uma fenomenologia do espírito, esta não pode limitar-se a uma ciência da experiência da consciência ou a uma fenomenologia do espírito distintamente concebidas pelo filósofo; antes disso, tem que ser justamente esta enquanto sabida por aquela.

Tal exigência não anula a perspectiva do para ela e a do para nós, respectivamente constatada e instaurada por Hegel mesmo na Fenomenologia do Espírito. Por isso, essas Interpretações daFenomenologia do Espíritode Hegel se querem ao mesmo tempo um instrumento de pesquisa e investigação tanto para o iniciante na leitura e de Hegel e portanto na experiência da consciência, quanto para o mais exigente pesquisador, que investiga não apenas Hegel ou a consciência, mas o espírito ou o conceito mesmo em seu revelar propriamente dito, cujo lugar necessariamente se constitui como fenomenologia do espírito ou, a rigor, do conceito. Neste sentido, o trabalho de explicitação levado a termo no volume em questão se impõe tanto do ponto de vista da formação de novos leitores e estudiosos da filosofia de Hegel no Brasil e nos países e grupos luso-falantes, quanto do ponto de vista de uma nova compreensão da situação presente, para cujo esclarecimento a filosofia de Hegel em geral e a Fenomenologia do Espírito em particular aportam uma contribuição sem igual. O que não significa dizer que para um afrontamento com os problemas hodiernos e para um enfrentamento adequado destes o pensamento aí manifesto não seja destituído de desacertos.

Em muitos dos textos que compõem estas Interpretações daFenomenologia do Espíritode Hegel perpassa a consciência dos acertos e dos desacertos de Hegel no que respeita aos problemas enfrentados pelo filósofo de Jena e às suas estratégias para a resolução dos mesmos. Não obstante, a obra se constitui como uma tentativa de compreensão e de reproposição dos temas e problemas propriamente fenomenológicos à luz do que Hegel designara ‘método especulativo’; seu caminho de preparação da consciência natural à ciência, que neste caso se mostra de um lado como a própria Fenomenologia do Espírito, e de outro como a Filosofia mesma em seu elemento especulativo, constitui-se de fato e de direito como uma alternativa ao pensamento contemporâneo no concernente à sua tarefa de um pensar de si mesmo. Portanto, estas Interpretações daFenomenologia do Espíritode Hegel alçam-se para além da discussão e interpretação de um texto filosófico determinado, logo para o pensamento de si mesmo do espírito do tempo presente.

 Prof. Dr. Manuel Moreira da Silva, novembro de 2014